Caminho de Santiago: experiência a dois no trecho francês - Tem criança na viagem
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Caminho de Santiago: experiência a dois no trecho francês
20/10/2018
Tempo de leitura: 5 minutos.

Meus caros: por circunstâncias da vida, tive o privilégio de, junto com minha esposa Tatinha, experimentar  uma façanha que, no meu humilde ponto de vista, deveria ser  vivenciada  por todo ser humano:  Fazer a pé o caminho francês de Santiago de Compostela.  O propósito de compartilhar este experimento, é para, quem sabe, despertar as sensações do caminho e seu impacto em nossa vida, , e talvez sensibilizar alguém a se desafiar nesta empreitada.

 

 

O chamado Caminho Francês começa em Saint Jean Pied de Port, na França, e termina em Santiago de Compostela, na Espanha. Oficialmente são 800 km, sendo 799 para o peregrino, e 1 km para o santo. Nosso projeto iniciou pelo caminho das Missões, no RS, em 2015, caminhando 8 dias, Caminho da Ilha, em Florianópolis, SC, em 2016, também 8 dias, e culminou com a ida à Espanha em 15 de maio do ano passado. A caminhada mesmo começou em 17/05/17, e terminou em 17/06/17.

 

A preparação que antecede a caminhada em si passa pela definição do melhor período, preparação física, emocional, organização de bagagem, financeira, e busca de informações com material divulgado por outros peregrinos, além de livros sobre o assunto, verificando acertos e erros de quem já viveu esta experiência.

 

O assunto é amplo, mas preciso e quero me ater ao que é relevante ser compartilhado. Ok. Tudo organizado, chegamos ao ponto de partida. Começa a caminhada. O momento da partida é algo extraordinário. Expectativa, empolgação, orgulho, bem estar. Fotos, cenários, pessoas. Buen camino!  é a saudação entre peregrinos. Saudamos e somos saudados. Primeira constatação: somos vistos. Todos se enxergam. Todos são peregrinos. Todos são iguais. Não tem classe social. Não tem nível cultural. Não tem vaidade. Todos são seres humanos, peregrinos.

 

 

 

Passo após passo, deixamos os primeiros quilômetros para trás. O primeiro dia é muito desafiador, por haver muita subida, e a distância ser de 27 km. Começa a definição do ritmo de cada peregrino. Alguns saem como se fosse competição, outros barulhentos, outros tiram foto de tudo, se impressionam com tudo. Muitos ajustes acontecem já no primeiro dia, mas também vão acontecendo ao longo da caminhada. Excesso de bagagem, mochila, roupa e calçado inadequados, dúvidas na alimentação, ritmo da caminhada, fazer ou não reserva de albergue, pousada ou hotel para garantir lugar…

Como pesquisamos bastante antes de fazer o caminho, nosso nível de acerto foi interessante. Optamos por caminhar sem reserva prévia de local para descanso. Foi tranquilo. Também optamos por carregar nossa mochila nas costas todo tempo. Por isto que ela tinha que ser muito enxuta.

O caminho. A direção da caminhada é do sol nascente ao sol poente. Segue a via láctea. Afirmam alguns historiadores que este sentido tem a ver com a intensa energização deste caminho, motivo pelo qual a grande e crescente procura. É o caminho que, conta a história, foi feito pelo apóstolo Tiago. Inclusive os restos mortais dele estão depositados na majestosa Catedral de Santiago de Compostela.

O ambiente proporcionado pelo caminho permite vivenciar muitas situações de grande significado e importância para a vida. A interação com os peregrinos de todo planeta. A condição de estarem todos em situação semelhante. A forma simplificada de cumprir esta trajetória, vivendo com muito pouco, ou quase nada, suprindo tão somente aquelas necessidades que são realmente básicas. A cumplicidade entre pessoas que sequer se conhecem, falam diferentes idiomas, têm diferentes feições, diferentes motivos de estarem vivenciando esta situação. A necessidade de um é de todos. A alegria de um é de todos.

À medida que os dias passam, os peregrinos vão se ajustando ao caminho, desapegando de futilidades, passando a perceber o que é essencial. As pessoas começam a se questionar o motivo de estarem fazendo algo tão primitivo.

As razões são muito pessoais. Promessa, desafio, curiosidade, espírito aventureiro, turismo, religiosidade, espiritualidade, busca interior, busca de evolução, de significados, de entendimentos diversos, de compreensão da própria vida.

O desafio de realizar o caminho se fortalece com o passar dos dias, pois paralelo à caminhada acontece o processo de introspecção. E isto é espontâneo. E é extraordinário. A mente entra num processo de reflexão e despertar da própria vida, da existência, conectando com aquilo que percorremos em nossa trajetória, aquilo que cultivamos, em que ser nos transformamos a partir das nossas escolhas. Acontece uma profunda conexão com o Ser superior. O peregrino é acometido de uma serenidade sem igual, e vai acontecendo um descarte de lixo emocional, de fardos desnecessários, produzidos e alimentados ao longo da vida, mas que se percebe, inúteis.

 

 

Durante a caminhada, como se tem muito tempo para si mesmo, é impressionante como se evidencia a capacidade de desenvolver a própria inteligência, com pensamento proativo, direcionado, o que nas vivências regulares é sufocado pela rotina. Isto dá uma noção do potencial que o ser humano tem de ampliar a percepção mental estabelecida, que acaba restringindo a capacidade intelectual. Temos muito, mas muito mesmo, para descobrir sobre nós mesmos. E isto causa uma sensação muito agradável, de motivação pela busca incessante de ampliação do conhecimento, do significado da nossa existência, reconhecendo por um lado a nossa ignorância, e por outro o imenso potencial para avançarmos.

 

A caminhada é um constante processo de interação. Pessoas de todas as partes do mundo, que nunca se viram, imergem num convívio de irmandade, de ajuda mútua, de interesse pelo bem estar alheio, em que, independente do idioma falado, a linguagem utilizada é o sorriso, a simpatia, o respeito, a empatia e o compartilhamento. Ouso dizer que é uma amostra de um sistema ideal de vida.

A espiritualidade é algo que aflora e se desenvolve no processo da caminhada. E é uma das grandes buscas dos peregrinos. A percepção das próprias limitações, e também das imensas capacidades, dos reais valores e significados da vida, a conexão com o Ser superior. O intenso sentimento de paz, serenidade, bem estar interior. O ambiente estabelecido é muito propício a que os peregrinos fiquem sensibilizados, num crescente e constante processo de despertar da existência.

Por fim, depois de dias e dias caminhando, interagindo, convivendo, chegamos no trigésimo segundo dia, ao destino: Santiago de Compostela. Muita emoção na chegada à Catedral, com uma intensa sensação de vitória, mesmo não competindo, mas pela superação, pela linda trajetória, que, na essência, nada mais é do que a própria vida. Vivida nestes 32 dias de modo muito intenso. Fica evidente que, o que realmente vale é a caminhada, não a chegada.

Alguns números da caminhada: São 800 kms. Caminha-se em média 1400 passos por km.  Chega-se ao nº de 1.120.000 passos. Os locais preferenciais dos peregrinos para repouso são os albergues. Aliás, somente peregrinos identificados são aceitos nos albergues. Nos municipais ou públicos, onde mais ficamos, pode-se ficar somente por uma noite. Preço fica entre 5 e 10 euros por pessoa. São coletivos, chegando a ter 250 leitos, com homens e mulheres compartilhando mesmo dormitório, mesmos banheiros e cozinha. E tudo num clima de total respeito.

 

 

Existem alguns albergues que acolhem sem estabelecer valor. É por donativo. Nestes as refeições são coletivas, e elaboradas por todos conjuntamente. Isto é incrível. É como uma grande família. Todos os albergues, bares e restaurantes têm um carimbo, para estampar na credencial do peregrino.

 

Em Santiago de Compostela, no encerramento, existe o serviço de fornecimento da chamada Compostela, que é um certificado do cumprimento da jornada, a partir dos carimbos na credencial. Na catedral são celebradas missas aos peregrinos, e em algumas delas com o botafumeiro, que é um incensário gigante, movimentado por cinco homens, inundando a catedral com fumaça de incenso. É algo arrepiante e muito emocionante.

Por fim, digo que foi uma experiência maravilhosa, marcante para toda vida. É daquelas coisas que deixam marcas para todo o sempre. E podem crer, marcas positivas. Muito positivas.

 

Para conhecer mais sobre destinos na Europa, separamos dois links:

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